Talvez seja uma opinião p0pular aqui no reddit, mas não no Brasil, país de maioria cristã. Me assusta que afirmar o óbvio, ou seja, “deus não existe” seja considerado indigesto e até desrespeitoso, inclusive para muitos ateus. A galera fica com o papinho de “não sei se existe ou não” mas, sejamos sinceros, sabemos sim, ao menos no sentido típico da palavra, usado para praticamente tudo exceto essa questão tida como sensível.
Você não para para considerar a existência de papai noel, unicórnios mágicos e fada do dente, né? Porque é tão improvável que qualquer pessoa que defenda tais seres sobrenaturais seria ridicularizada. Agora, porque não aplicamos o mesmo princípio para deus? E não crente, sossega, se vitimizar e dizer que as comparações são desrespeitosas não invalida o argumento.
O cristão vai dizer coisas como: “pois a cultura se formou a partir do cristianismo e blablabla”, mas isso é apenas falácia de apelo à tradição ou de apelo ao povo mesmo. Algo não é mais provável de existir só porque muita gente acredita ou porque há civilizações que se baseiam nessa mentira.
Aliás, todos os argumentos que os cristãos consideram geniais para defender a existência de deus sequer suportam o deus judaico cristão, no máximo dão base para você ser deísta, ou seja, crente em uma entidade totalmente descaracterizada, genérica e desconhecida. Uma breve refutação a eles que, vamos ser francos, você crente só conhece pois o William Lane Craig ou outro guru, como Rodrigo Silva, te ensinou, né?
- Argumento cosmológico: Tudo que existem tem uma causa, inclusive o universo, logo ele precisa de uma causa primaria que é deus.
R: É claro, não se aplica se você defende um universo incausado, desconsidera que não faz sentido pensar em causa quando ainda não existe tempo (pois tem de haver um depois e antes da causa), fora que algo tem de ter criado deus também, o que o crente costuma não aceitar pois o amigo imaginário dele tem que ser muito foda e sem criador.
- Argumento ontológico: Supõe que deus é perfeito e nada perfeito pode ser meramente imaginário, logo deus existe pois temos a concepção dele em nossas mentes.
R: Esse é o mais ridículo e, portanto, pouco utilizado por crentes hoje em dia. Até os teólogos historicamente não aceitavam de primeira isso. Óbvio que algo não passa a existir só só porque eu penso sobre. E isso é mais argumento contra a existência da perfeição que a favor da existência de deus.
- Argumento teleológico: Se algo parece planejado então tem de ser planejado. Isso vale para o universo, a terra e seres vivos como o ser humano, logo deus criou tudo.
R: Aqui é basicamente o que da vazão para design inteligente e outras pseudociências. São muitos exemplos utilizados que aparentem ter um projeto, mas que na verdade não possuem e são muito bem explicados pela ciência. Você não encontra uma poça de água no chão e pensa que um arquiteto de piscinas fez ela. Fora que, quando os exemplos vão para o lado da biologia, muitos exemplos de “design burro” refutam esse argumento furado.
É claro, cristão também gosta de citar as batidas e refutadas 5 vias de Tomás de Aquino:
Vias 1, 2 e 3 (motor imóvel, primeira causa e contingencia): Basicamente 3 versões do argumento cosmológico, já refutado.
Via 4 (graus de perfeição): presume que só porque observamos algo bom ou algo ruim, então há uma gradação entre mais e menos perfeitos. Logo tem de ter um padrão máximo que é deus.
R: Sim, é bem tosco, tipo o argumento ontológico. É claro que, só porque acho um sorvete bom, não quer dizer que tenha um sorvetão perfeito. Ser bom ou ruim é totalmente subjetivo, no caso do sorvete, ao meu paladar. O argumento confunde a capacidade de julgamento do ser humano com algo dado pela natureza. Sim, a gente ainda vai chegar no argumento da moral.
- Via 5 (finalidade): É basicamente a 4ª via só que lidando com a inteligencia, ou seja, há seres mais e menos inteligentes e, a partir disso, se extrapola que tem de existir uma inteligencia suprema.
Beleza, deu pra ver que os argumentos religiosos são bem fracos, né? Eles sabem disso também, embora não admitam, então há mais dois reforços geralmente utilizados:
- Aposta de Pascal: Se você não acredita e deus existe então você vai pro inferno e caso estiver certo, não ganha nada, logo é melhor acreditar que não acreditar.
R: É claro, pra que te convencer com argumentos se posso a partir do medo, certo? Como não se propõe a demonstrar a existencia de deus, mas só fazer ameaças, então dispensa refutação.
- Argumento da moral: Se você é ateu, então não há uma moral objetiva por ele determinada, logo tudo é permitido.
R: Para que provar que deus existe se podemos insinuar que ateus são imorais e desqualificar o debatedor? Brincadeiras a parte, esse argumento é muito utilizado quando crentes são confrontados com o problema do mal e querem uma fuga (trataremos disso em breve). Para começar, ateísmo, no geral, não se propõe a negar a objetividade da moral. Alguns o fazem? claro, mas não todos, logo o argumento não vale para todos os ateus. Segundo, também se confunde algo “objetivo” com “divino”. Ninguém provou que algo objetivo é dado por tal entidade ou sequer que esse algo é objetivo, fora que o argumento sequer consegue defender a existencia de deus. Se correto, ele só deixa duas possibilidades em aberto, no máximo: 1: deus existe e a moral é objetiva; 2: deus não existe e a moral não é objetiva.
Também temos o dilema de Eutífron para refutar essa questão, ou seja: Ou a moral é determinada por deus, logo arbitrária e subjetiva; ou a moral precede deus que só cumpre com ela, logo não depende de deus. Fora também, há ampla discordância moral entre pessoas religiosas até na mesma congregação, demonstrando que a crença não providencia fonte moral unificada, além da problematica associada a existencia de um ditador supremo da moralidade: Se deus pedir que o cristão mate o próprio filho, ele teria de fazer, independente de achar certo ou errado, logo, se deus existe, tudo é permitido.
É claro, para além de ter como refutar facilmente os argumentos de crentes, há também bons argumentos contrários à existência de deus, como o problema do mal, que contraria totalmente a noção de um ser onipotente e omnibenevolente muito bem sintetizado no paradoxo de epicuro. Simplesmente não tem como um deus bondoso deixar tanta crueldade acontecer no mundo e ema ema ema.
Fora que os atributos divinos são contradições lógicas em si que levam a mais e mais paradoxos. Ex: Se deus é onipotente, poderia ele criar uma pedra impossível de ser carregada? Se não, logo não é onipotente e, se sim, então ele não pode carregar a pedra, logo não é onipotente.
Dai surgem muitas desculpas esfarrapadas também. Tá louco pra falar de livre arbítrio, né crente? Tá bom, então um ser que pode fazer absolutamente tudo não conseguiu achar uma opção que garantisse livre arbítrio para o homem ao mesmo tempo em que impedisse o mal de acontecer??? Parece contraditório, logicamente impossível ter livre arbítrio ao mesmo tempo em que se é impossível praticar o mal? Ora essa, não deveria ser para um ser perfeito que consegue anular as leis da lógica ao seu bel prazer.
É claro, se aplicarmos a navalha de Ockham para deus, chegamos a conclusão óbvia. É uma explicação extremamente mirabolante e dependente de muitos pressupostos não evidenciados para qualquer coisa. Gosto de lidar com a questão até como um problema de probabilidade. Tipo, o quão provável você diria ser a existência de reptilianos infiltrados no governo? Você consegue chegar a algum número que seja maior que 1%? Não né? Então, deus é ainda mais improvável de existir, pois ao menos um reptiliano, embora um ser sem qualquer evidência que embase sua existência, ainda configuraria um ser físico, tangível, visível e detectável. Todas essas características de coisas que conhecemos e sabemos existir. Percebe que deus não tem nenhuma delas? E como chamamos coisas que são indetectáveis, intangíveis e invisíveis? Pois é, inexistentes.
Enfim, só posso concluir que ateus evitam falar isso pois não querem ofender quem crê mesmo pois obviamente, em uma conversa sobre reptilianos, duvido muito que alguém minimamente são teria algum problema em dizer que eles não existem. Se eu dissesse uma besteira como “prove que não existem”, seria totalmente ridicularizado.
Já antecipo alguns comentários. Tem gente que vai desqualificar de muitas formas: Xingando, talvez falando sobre ateu chato, até porque é mais fácil fazer ad hominem que refutar; insinuar ou dizer que eu não conheço tal livro, autor, corrente teológica, tradição literária etc. pois é mais fácil ser pedante, mais uma vez, fazer ad hominem que refutar; dizer que simplifiquei muito os argumentos e fiz espantalho, até porque é super viável e comum eu tratar de todas as nuances sobre séculos de filosofia em um único post no reddit em que simplifiquei até os argumentos ateístas; Falar que tem muito texto, mas, é claro, se tivesse pouco, diriam que simplifiquei demais também. É claro, fica o resumo no final:
TL/DR: É muito improvável deus existir devido a vários motivos, inclusive os argumentos a favor da existência de deus são muito fracos e facilmente refutáveis (cosmológico, ontológico, teleológico, Tomás de Aquino, Pascal, moral). Dizer “deus não existe” deveria ser tão banal quanto dizer “papai noel não existe”. Ateus evitam dizer isso só para não ofender religiosos.